← INSIGHTSArtigo

Seleção de fatores

1 de julho de 2021·Unknown
Seleção de fatores
Este conteúdo foi originalmente produzido pela DAO Capital, hoje parte da Giant Steps Capital. As informações, opiniões e referências aqui contidas refletem o contexto da época de sua publicação e podem não representar a visão ou a estrutura atual da Giant Steps Capital.

No último post, nós descrevemos como a testagem de um número elevado de estratégias de investimento influencia a interpretação do índice de Sharpe (IS). Vimos que o hábito de descontar o IS apresentado é correto, mas que se for feito de forma inadequada pode levar o investidor a escolhas ruins.

Neste post, nós discutimos métodos que podem nos ajudar a selecionar os melhores fatores de investimento entre os quase 400 reportados na literatura (classificação aqui). Para os métodos apresentados aqui, vale o princípio de que o melhor é restringir o conjunto de fatores testados com base na teoria ou evidência empírica sólida.

Nós ilustramos o uso das chamadas spanning regressions para o mercado brasileiro. Nesse estudo, o modelo base contém os fatores valor, qualidade e momentum. A questão que abordamos é se devemos incluir os fatores de mercado e tamanho a esse modelo. Os resultados mostram que o fator de mercado não deve ser incluído nesse modelo. No entanto, o fator tamanho se mostrou marginalmente significativo e a sua inclusão poderia aumentar o desempenho do modelo base.

Para o mercado americano, nós destacamos os resultados de Harvey e Liu (2021). Ao contrário de outros trabalhos, o fator de mercado se mostrou o mais importante para explicar a diferença de retorno entre as ações. Os fatores tamanho, valor e qualidade apresentaram papel secundário.

Parte VI – Métodos para a seleção de fatores de investimento

A seleção de fatores de investimento pode ser vista como uma competição entre modelos de precificação. Como exemplo, vamos usar o modelo de três fatores de Fama e French (1993):

E(R)=Rf +βM(E(RM)−Rf) +βSMBE(SMB) +βHMLE(HML)

Os fatores de mercado (M), tamanho (SMB, small-minus-big firms) e valor (HML, high-minus-low book-to-market) constituem o "lado direito" da equação, as chamadas variáveis independentes do modelo. Um bom modelo deve explicar da melhor forma possível o retorno dos ativos utilizados do "lado esquerdo" da equação. Isso pode ser testado estimando-se a seguinte regressão linear:

Ri,t−Rf,t =αi +βM,i(RM,t− Rf,t) +βSMB,iSMBt +βHML,iHMLt+εi,t

O foco do teste é o coeficiente alfa da regressão. Se o modelo for adequado, para cada ativo testado, nós devemos obter um alfa próximo de zero.1 A questão é que ativos devemos utilizar para testar a qualidade de um modelo.

Uma possibilidade é a utilização de ações individuais. Ativos individuais, no entanto, possuem muito "ruído" (risco específico, o ε na regressão acima), o que dificulta a identificação da sensibilidade de cada ativo a variações nos fatores do modelo (expressa pelos coeficientes βM, βSMB e βHML).

Uma solução natural é a construção de portfólios de ações de tal forma que o ruído de uma ação atenue o de outra. Essa é a chamada abordagem "pela esquerda" (left-hand-side approach).

Fama e French (1993) constroem portfólios de teste com base nos mesmos critérios de tamanho e valor (detalhes aqui) utilizados para a formação dos fatores de estilo (SMB e HML). Isso foi criticado por facilitar o trabalho desses fatores na explicação dos retornos das ações. Ou seja, a forma de construção das carteiras de teste estaria determinando a importância dos fatores utilizados no modelo.

A alternativa encontrada é a chamada abordagem "pela direita" (right-hand side approach). Nesse caso, os fatores que estão sendo considerados para fazer parte do modelo base funcionam como portfólios de teste. Por exemplo, poderíamos testar se o fator momentum (MOM) melhoraria o modelo de 3 fatores de Fama e French.2

As regressões nesse caso são chamadas de spanning regressions. Elas testam se os fatores do modelo base (M, SMB e HML, no nosso exemplo) abrangem (span) os fatores testados (MOM). Se o intercepto alfa (α) na regressão acima for diferente de zero, isso significa que o fator testado pode melhorar o desempenho do modelo base.3

Para avaliar a contribuição de um fator a um determinado modelo, nós precisamos construir uma métrica um pouco mais elaborada. Essa métrica é dada pela razão entre o alfa ao quadrado e a variância do risco específico da regressão com cada um dos fatores. O valor obtido indica o aumento possível no máximo índice de Sharpe que pode ser alcançado com a inclusão do fator em questão ao modelo base. Mais precisamente, essa métrica relaciona o aumento no quadrado do índice de Sharpe:4

Voltando ao nosso exemplo, se a regressão com o fator momentum gerar um alfa (α) alto e um risco específico (σε) baixo, isso sugere que esse fator deva ser adicionado ao modelo base.

Aplicação para o mercado brasileiro

Vamos ilustrar a metodologia acima para o mercado de ações brasileiro entre fev/2008 e abr/2021. Nós tomamos os três principais fatores proprietários da DAO Capital, valor (VAL), qualidade (QUA) e momentum (MOM), como o nosso modelo base.

A ideia é verificar se o fator de mercado (M) ou o fator tamanho (TAM) deveriam ser acrescentados a esse modelo (descrição desses fatores aqui). Para isso, estimamos regressões da seguinte forma:5

Rteste=αteste +βVALVALt +βQUAQUAt +βMOMMOMt+ εteste,t

sendo que os portfólios de teste em cada caso são o retorno em excesso da carteira de mercado (RM−Rf) e uma carteira autofinanciada comprada em ações de empresas pequenas e vendida em ações de empresas grandes (TAM).

Os resultados são claramente contra a inclusão do fator de mercado no modelo base. Apesar do alfa estimado ser positivo, ele não se mostrou estatisticamente significativo.

No caso do fator tamanho, o alfa é positivo, mas marginalmente significativo. Comparando-se a métrica que leva em consideração tanto o alfa quanto o risco específico da regressão, os resultados confirmam a superioridade do fator tamanho em relação ao fator de mercado. Sendo assim, recomenda-se a realização de mais testes para avaliar melhor o potencial de desempenho desse fator.

Os resultados de Harvey e Liu para o mercado americano

Harvey e Liu (2021) propõem uma metodologia inovadora para a seleção de fatores que permite a utilização de ações individuais como ativos-teste. Isso evita o problema relacionado com a maneira de formação dos portfólios de teste.6 A aplicação é feita para o mercado americano.

Os autores testam 14 fatores reconhecidos pela literatura e utilizam duas especificações diferentes para a seleção desses fatores. Em ambos os casos, o fator de mercado aparece como o fator dominante para a explicação da diferença de retorno entre ações individuais. Esse é o principal resultado desse estudo visto que é contrário aos resultado de outros estudos.7

Em uma das especificações, o fator tamanho (SMB) é o segundo fator mais importante. O fator valor (HML), muito utilizado pela indústria de investimento, é o terceiro e último fator selecionado. Coincidentemente, esses são os três fatores preconizados por Fama e French (1993).

Na segunda especificação utilizada pelos autores, o fator de mercado também se mostrou o mais importante, estando em segundo lugar o fator qualidade (quality minus junk, QMJ) proposto por Asness, Frazzini e Pedersen (2019).

Concluindo a série fatores de investimento

Em posts anteriores, nós falamos sobre a origem dos fatores de investimento, a evolução para modelos multifatoriais, a forma de cálculo dos fatores de estilo, o conjunto básico de fatores de investimento, a expansão exagerada dos fatores reportados na literatura e as consequências para a avaliação do índice de Sharpe reportado em backtests.

Nós encerramos essa primeira série de posts sobre fatores de investimento com a descrição de alguns métodos utilizados para a seleção de fatores de investimento. A abordagem pela direita (spanning regressions) é claramente superior à abordagem pela esquerda quando se considera a inclusão de um fator a um determinado modelo base.

Nós ilustramos o uso dessa abordagem para o mercado brasileiro usando um modelo base que inclui os fatores valor, qualidade e momentum. Os nossos resultados não recomendam a inclusão do fator de mercado a esse modelo, mas apontam para a necessidade de mais testes sobre o desempenho do fator tamanho.

A recente metodologia proposta por Harvey e Liu (2021) se propõe a ser ainda melhor do que as spanning regressions. No entanto, os autores mencionam que a variação das características das empresas ao longo do tempo pode ser um problema para esse método. É nossa intenção avaliar essa metodologia em breve.

(1) O termo ε representa o risco específico de cada ação e tem média igual a zero.

(2) Barillas e Shanken (2017) mostram que, em casos como esse, é suficiente utilizar os fatores candidatos como ativos de teste, não sendo necessário construir inúmeros portfólios de ações para essa finalidade.

(3) Pode-se utilizar a métrica proposta por Gibbons, Ross e Shanken (GRS, 1989) para testar se um conjunto de fatores é capaz de adicionar poder explicativo a um determinado modelo base.

(4) Ver Barillas e Shanken (2017).

(5) Os coeficientes βM, βSMB e βHML também são específicos para cada teste. No entanto, o subscrito "teste" foi omitido para facilitar a visualização.

(6) O método tem como base a técnica de reamostragem conhecida como bootstrapping e é robusto para amostras pequenas. Além disso, ao invés de utilizarem séries temporais separadas para cada ativo-teste, como os métodos apresentados anteriormente, eles utilizam as chamadas regressões em painel.

(7) Ver, por exemplo, Fama e French (1992) para evidências contrárias ao poder explicativo do fator de mercado em cortes transversais do retorno de ações.

Este material foi elaborado pelo grupo Giant Steps e possui caráter meramente informativo. Em casos de eventuais divergências entre as informações aqui contidas e as disponibilizadas através do extrato mensal, emitido pelo administrador do fundo, deverão prevalecer as informações do referido extrato mensal. Recomenda-se a leitura atenta e cautelosa do regulamento deste fundo, em caráter antecedente a uma eventual tomada de decisão de investimento. Nenhuma informação contida neste material constitui uma solicitação, oferta ou recomendação para compra ou venda de cotas de fundos de investimento, ou de quaisquer outros valores mobiliários. A rentabilidade obtida no passado não configura, em hipótese alguma, garantia de resultados futuros. A rentabilidade divulgada não é líquida de impostos. Para a avaliação do desempenho do fundo de investimento, é recomendável uma análise de, no mínimo, 12 (doze meses). Fundos de Investimento não contam com garantias do (a) administrador do fundo; (b) Grupo Giant Steps; (c) Fundo Garantidor de Crédito – FGC; nem por qualquer mecanismo de seguro. As comparações a certos índices de mercado foram incluídas para referência apenas e não representam garantia de retorno pelo Grupo Giant Steps. Este fundo se utiliza de estratégias que podem resultar em significativas perdas patrimoniais para seus cotistas, podendo, inclusive, acarretar perdas superiores ao capital aplicado e a consequente obrigação dos cotistas em aportar recursos adicionais para cobrir o prejuízo do fundo. Este material não pode ser copiado, reproduzido ou distribuído sem a prévia e expressa anuência do Grupo Giant Steps. Supervisão e Fiscalização: Comissão de Valores Mobiliários (CVM) – Serviço de Atendimento ao Cidadão: www.cvm.gov.br. Contato Institucional Grupo Giant Steps: contato@gscap.com.br | +55 11 2533 2820.
Comentários
Deixe seu comentário