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Carta aos cotistas (Set/16)

3 de outubro de 2016·Mauro Shinzato

Os primeiros meses pós Dilma Rousseff

É sintomático de um gradual retorno à normalidade, e tributo ao bom funcionamento das instituições políticas no Brasil, que o noticiário doméstico tenha sido mero figurante no sobe-e-desce dos mercados em setembro. As espetaculosas ações da Lava Jato, das quais o mês foi pródigo, dominaram as mídias. Sua influência sobre preços, no entanto, foi discreta. Dois ex-ministros da Fazenda dos governos Lula e Rousseff, Antônio Palocci e Guido Mantega, foram temporariamente presos por suspeita de recebimento de propina, sem provocar qualquer sobressalto nas bolsas. O ex-presidente Lula, acossado há meses pelo Ministério Público, se tornou réu pela segunda vez, assim como dois correligionários históricos, Paulo Bernardo e a mulher, senadora Gleisi Hoffmann, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Mais de cinquenta novas delações estão no forno da Lava Jato e prometem enredar centenas de políticos – entre os quais, figuras de primeiro escalão do governo – nas teias de pagamentos clandestinos da empreiteira Odebrecht. Nada disso perturbou o sono de investidores.

A deterioração fiscal das contas públicas, impactada por forte queda na arrecadação de agosto, tampouco afetou o humor dos mercados. A piora foi creditada à conjuntura adversa, herança da calamitosa gestão econômica do governo anterior. O curto prazo é dado como batalha perdida mas os agentes apostam que a sangria será estancada com a aprovação de reformas, via emendas constitucionais. O governo promete enviar a mais aguardada delas, PEC 241, que estabelece teto ao crescimento do gasto público, ao Congresso em outubro, antes do segundo turno das eleições municipais.

O comportamento imprevisível do mercado

Quem estivesse trancado num porão, tendo por único canal com o mundo exterior uma tela de cotação de preços, no entanto, permaneceria alheio a todos esses eventos. Em contraste com o primeiro semestre, quando a política ditou o rumo dos mercados, no segundo os ativos se descolaram do cenário político – em particular, das bombas detonadas semanalmente pela Operação Lava Jato. De fato é como se o novo governo estivesse ainda no prazo de carência, com licença para errar. No mês de setembro, em especial, o foco se deslocou para a política monetária e os bancos centrais.

No Brasil, o BC sinalizou, em seu Relatório de Inflação trimestral, que um novo ciclo de redução de juros é iminente. Sujeito à aprovação da PEC 241, que colocaria freio à expansão fiscal, e mantidas as condições atuais de mercado, a instituição projeta inflação ligeiramente abaixo da meta de 4,5% em 2017, chegando a 3,8% em 2018. As taxas de juros, bastante voláteis durante o mês de setembro, prontamente acusaram recibo e fecharam em queda. O movimento foi reforçado pela divulgação de inflação de 0,23%, a menor taxa para o mês de setembro em sete anos.

Nos EUA, diante de evidências de que a economia arrefece, o FED manteve inalterada a taxa básica na reunião de setembro: “Julgamos que o argumento para uma subida (da taxa de juros) se tornou mais forte mas decidimos, por ora, aguardar” disse Yellen à imprensa. “A economia ainda tem algum espaço para crescer”. A decisão veio na esteira de longo debate sobre a estratégia de normalização da política monetária nos EUA. Já são sete anos em que a taxa básica se arrasta próximo a zero, situação extraordinária que, inicialmente, se supunha breve. Passados oito anos da eclosão da crise, com taxa de desemprego abaixo de 5% e crescimento médio de 2,3% nos últimos dois anos, todos – incluindo o próprio FED – esperavam que taxa básica estivesse mais próxima da média histórica (antes da crise, essa média era de pouco menos de 6%). De fato, no final de 2015 o FED subiu a taxa para o intervalo de 0,25%-0,50% e a previsão era subir mais quatro vezes em 2016, terminando o ano com a taxa acima de 1%. Mas, seja por turbulência nos mercados (forte queda das bolsas em janeiro), seja por eventos fora do radar (como o “Brexit”), seja ainda porque a economia americana começou a esfriar, a decisão foi sendo adiada e, hoje, a expectativa é de uma alta no último trimestre, se tanto. Se, por um lado, não há risco de inflação no horizonte (pelo contrário, ela teima em ficar abaixo da meta), por outro há crescente nervosismo com a possibilidade de bolhas financeiras infladas pelo longo período de juros baixos. Há também preocupação com a saúde dos fundos de pensão e bancos, que lutam para gerar receita com ativos que rendem zero. As ações do Deutsche Bank sofreram forte queda em setembro, nominalmente por multa regulatória. Mas a ação cai há meses e o pano de fundo é, justamente, a baixa rentabilidade do core business.

Desempenho setembro de 2016: Fundo Zarathustra

Em setembro os modelos de tendência sofreram com as múltiplas reversões de mercado, sobretudo nos juros. No fim do mês, entretanto, recuperaram parte das perdas. Os modelos de volatilidade, ações e reversão à média tiveram contribuição positiva. No agregado, o fundo Giant Zarathustra FIM rendeu -0,73%.

Veja os dados consolidados do fundo

Sobre o autor
Mauro Shinzato
Mauro Shinzato
CEO

+10 anos escalando negócios de tech e mercado financeiro. Responsável pela estratégia corporativa, representação institucional e novos negócios. Formado em Administração de Empresas na FGV

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