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Carta aos cotistas (Nov/16)

1 de dezembro de 2016·Mauro Shinzato
“And what rough beast, its hour come round at last, Slouches towards Bethlehem to be born?” (The Second Coming, W. B. Yeats)

“And what rough beast, its hour come round at last, Slouches towards Bethlehem to be born?” (The Second Coming, W. B. Yeats)

O improvável final de 2016: A eleição de Donald Trump

NUM ANO QUE SERÁ LEMBRADO por eventos singulares e aberrações estatísticas – impeachment da presidente no Brasil, vitória do Brexit no Reino Unido, triunfo do pequeno Leicester City no inglês e do Palmeiras no brasileiro – coube a novembro parir a que seja talvez a maior surpresa do ano: a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Cabe ressalvar que a vitória de Trump foi um choque mas, a rigor, não uma zebra: os candidatos chegaram à eleição tecnicamente empatados e os mercados de aposta pagavam 3 para 1 no caso de vitória do republicano – o que não fazia dele, propriamente, um azarão. Foram as idiossincrasias do sistema de votação americano, baseado em colégio eleitoral, e um punhado de derrotas apertadas em estados decisivos que tiraram a vitória de Clinton, mesmo tendo ela recebido dois milhões de votos a mais do que seu adversário¹.

Muita tinta se derramou sobre as causas sociológicas do fenômeno Trump: seria uma manifestação da cepa populista que percorre a política americana há dois séculos (desde a eleição de Andrew Jackson, em 1824). Cepa que ficou dormente durante o período de prosperidade do pós-guerra mas que retorna agora, mais virulenta do que nunca, na esteira das profundas crises e transformações sociais do século 21. É um paradoxo que tenha sido um bilionário representante da elite cosmopolita quem tenha capturado o novo zeitgeist populista; Trump, do alto de sua torre envidraçada na quinta avenida, à frente de um império global de propriedades, se afigura como improvável profeta dos deserdados da globalização e do progresso tecnológico. Casado três vezes e alvo de múltiplas acusações de assédio sexual, tampouco lhe cai bem o figurino de conservador, caro a certo eleitorado republicano. Vulgar, vaidoso, impulsivo, politicamente inexperiente e desprovido de uma visão-de-mundo articulada, Trump parece singularmente desqualificado para liderar o mundo livre. De fato, seu maior talento foi saber canalizar melhor as angústias e ressentimento do eleitorado do que seus rivais de partido. Fiel ao discurso populista, Trump promete recorrer a protecionismo principalmente contra China e México (cujas moedas, não por acaso, sofreram fortes desvalorizações). Tal política não ficará sem retaliação e, levada a extremos, resultará em redução permanente do comércio e riqueza mundiais, para prejuízo de todos. Articulada com menos clareza, mas potencialmente mais profunda, é a promessa de uma guinada na política fiscal com corte de impostos e um amplo programa de renovação da infra-estrutura. Mix que aumentaria significativamente o déficit e endividamento do governo e injetaria forte estímulo à economia que, tudo mais constante, traria crescimento e o retorno da inflação². Juntando as peças, o mercado derrubou violentamente o preço dos títulos da dívida americana fazendo disparar taxas de juros globalmente.

A reação no mercado brasileiro

Os mercados brasileiros chacoalharam a reboque da turbulência global sem, contudo, abrir mão de crises cultivadas em seu próprio quintal. A principal envolveu a queda de ministro após revelações constrangedoras, tema recorrente no governo Temer. A última vítima foi Geddel Vieira, ministro da Secretaria de Governo, que entregou o cargo após seu colega da Cultura, Marcelo Caleros, denunciar pressão pela liberação de obra na qual Geddel tinha interesse pessoal. Caleros, ele próprio demissionário, saiu atirando: fez denúncia ao Ministério Público e entregou gravações do presidente e ministros à polícia. A temperatura política continuou a subir quando, dias depois, o congresso aprovou uma versão desfigurada do projeto de lei de combate à corrupção. Os detalhes são complexos mas é suficiente dizer que os procuradores da Lava Jato ameaçaram renunciar, caso o projeto seja aprovado na versão emasculada apresentada pela câmara. O pano de fundo dessa briga foi o agravamento da crise nos estados que, cada vez mais, se encontram em situação de aguda insolvência (o Rio Grande do Sul seguiu o exemplo do Rio de Janeiro e declarou estado de calamidade financeira). Não contribui para desanuviar o ambiente o fato da economia continuar encolhendo (-0.8% no terceiro contra o segundo trimestre). Até empresários, aliados de primeira hora do governo Temer, começam a demonstrar impaciência com a demora na aprovação das reformas e com o que percebem como excesso de conservadorismo do Banco Central. Para um governo cuja popularidade é baixa e legitimidade, constantemente questionada, o custo político do desgaste é alto. O risco que assombra o mercado é que o agravamento da crise solape de vez a capacidade do governo aprovar reformas – em particular, a fundamental reforma da previdência.

Desempenho novembro de 2016: Fundo Zarathustra

Novembro foi frustrante para o Zarathustra FICFIM uma vez que os modelos registraram fortes ganhos com a inesperada vitória de Trump mas não lograram segurá-los até o fim do mês, que terminou com retorno acumulado de -0.32%. O histórico do fundo revela que não são incomuns os períodos de baixo desempenho, por vezes se estendendo vários meses até que o fundo volte a registrar ganhos expressivos (que costumam mais do que compensar os período fracos). De fato, embora frustrante, esse comportamento é esperado e não temos motivo para acreditar que o padrão histórico tenha se alterado. Aproveitamos para comunicar a interessados que o fundo reabriu para aplicações (para maiores informações, favor entre em contato com a área comercial).

Veja os dados consolidados do fundo

¹ A incerteza no resultado de votação por colégio eleitoral é, em geral, maior do que na votação direta. Pode-se fazer uma analogia com opções: votação direta equivale a uma opção sobre cesta com n ativos; colégio eleitoral, a uma carteira de n opções. A volatilidade da primeira é menor devido à correlação entre ativos. A incerteza aumenta quando as opções estão próximas ao dinheiro, isto é, quando os candidatos estão empatados.

² A quem acompanha o acirrado debate entre economistas keynesianos, em geral alinhados ao partido Democrata, como Paul Krugman e Larry Summers, e proponentes de Estado mínimo e austeridade, abrigados predominantemente sob o partido Republicano, não escapa a ironia de ser justamente um republicano a levar adiante um programa de inequívocos contornos keynesianos.

Sobre o autor
Mauro Shinzato
Mauro Shinzato
CEO

+10 anos escalando negócios de tech e mercado financeiro. Responsável pela estratégia corporativa, representação institucional e novos negócios. Formado em Administração de Empresas na FGV

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