“Que possas viver em tempos interessantes” (provérbio chinês)
“Que possas viver em tempos interessantes” (provérbio chinês)
Temer e Trump; um comparativo
À primeira vista os presidentes Temer e Trump têm pouco em comum, além de serem ocupantes recentes do cargo e de lá terem chegado por trajetórias, digamos, pouco convencionais. Trump é um neófito em política que fez fortuna no ramo imobiliário (onde também colecionou alguns fracassos) que, ultimamente, vivia papel de “empresário-celebridade” com incursões pouco dignas pelo submundo dos reality shows. Chegou à presidência com um discurso incendiário, nacionalista, xenofóbico e protecionista, cujo teor abertamente populista alienou boa parte de seu próprio partido mas ressonou fortemente entre certas demografias – em particular, a população branca que vive em áreas rurais e no interior (regiões industriais em declínio, conhecidas como “rust-belt”), de média escolaridade e baixa renda, maior vítima da derrocada do emprego industrial e da estagnação da renda que sobreveio à onda de globalização, avanços tecnológicos e automação das últimas décadas.
Temer, ao contrário, é uma velha raposa da política tradicional que aproveitou a implosão política da titular para chegar à presidência. Diferente de Trump, Temer é avesso a populismo por temperamento. Reuniu uma equipe econômica tarimbada, empenhada em juntar os cacos das ruinosas políticas nacionalista e populista de sua antecessora. Cacique de um partido envolvido até a medula em corrupção, tudo indica que Temer carregue a mácula de financiamentos ilegais de campanha (que, de resto, corroeu a maior parte da política brasileira) – mácula que, comprovada, o deixa exposto ao mesmo destino da antecessora, a cassação.
Há mais semelhanças entre os presidentes do que parece, porém. Ambos lideram governos impopulares (embora Trump ainda esteja longe da impopularidade de seu colega brasileiro, ostenta o incômodo título de presidente recém-empossado mais impopular da história americana), cuja legitimidade é contestada (Temer, pelas circunstâncias em que ascendeu ao cargo; Trump, por ter perdido o voto popular e sido beneficiado pela interferência de uma potência estrangeira na campanha eleitoral). A credibilidade de ambos sofre desgaste de escândalos e vazamentos comprometedores (as delações da Lava Jato num caso, gravações de conversas sigilosas entre assessores e oficiais russos, noutro) que resultam numa procissão de ministros sobre o cadafalso. Com baixa popularidade e enfrentando uma imprensa hostil, Temer e Trump se colocam o desafio de reformas ambiciosas: Trump quer aliviar a tributação sobre empresas e taxar importados (elevando barreiras comerciais). Suas políticas são fiscalmente expansionistas (sobretudo via aumento de gastos militares e investimento em infraestrutura). Temer, por outro lado, abraça uma visão mais liberal e elegeu o saneamento das finanças públicas como prioridade. Propôs uma ambiciosa reforma da Previdência, seguida de minireformas tributária e trabalhista. Tenta emplacá-las no Congresso no momento em que seu governo sofre maior pressão da opinião pública. Assim como Trump, conta com maioria no congresso. Como Trump, sua base parlamentar é volúvel e pode se evaporar a qualquer momento, ao sabor de crises e da opinião pública.
Temer se agarra aos incipientes efeitos positivos de suas políticas econômicas, sobretudo à inflação cuja queda consistente possibilitou ao COPOM promover o segundo corte de 75bps, em fevereiro. O desemprego continua a aumentar (atingiu 12,9 milhões de desempregados em fevereiro) na esteira da queda da atividade. Há indícios, contudo, que a recessão tenha batido no fundo do poço. De fato, após um recuo de 3,6% em 2016, analistas esperam um crescimento de 0,5% em 2017 e 2,4% em 2018.

As políticas de Trump, se levadas a cabo (há dúvidas de que sua desastrada equipe reúna capacidade para tal, mas é cedo), seriam reflacionárias (isto é, tenderiam a elevar a inflação) num momento em que a economia americana vem ganhando momento de forma consistente. De fato, a economia se aproxima do pleno emprego (gráfico 1 e 2: desemprego e pedidos de seguro desemprego, respectivamente) enquanto a atividade continua a se aquecer (gráfico 3: índice de gerentes de compra).



Após oito anos de crescimento anêmico e baixa inflação, a economia parece ter atingido “velocidade de escape”, isto é, saído da armadilha de liquidez dos juros zero com a inflação retornando à meta de 2% do FED – ainda que Trump tropece nas reformas ou deixe de entregar uma política fiscal expansionista. Não por outro motivo, o FED prometeu antecipar o próximo aumento de juros para março, causando certo frisson nos mercados e interrompendo a impressionante sequência de altas que levou as bolsas a níveis recordes em fevereiro. Já o risco desse FED entornar o caldo, aumentando demais os juros, parece baixo; a maioria de seus membros são de pura extração keynesiana e já deixaram claro, em mais de uma ocasião, que preferem o risco de inflação (contra qual dispõem de instrumentos monetários) ao de deflação (diante do qual o FED é impotente, pois os juros esbarram no limite inferior zero).
Assim que Temer e Trump, presidindo sobre economias em pontos inteiramente distintos do ciclo econômico estão, paradoxalmente, diante de encruzilhadas semelhantes – com larga gama de desfechos possíveis. Se Temer fracassar na aprovação da reforma da Previdência, o resultado será quase certamente um desastre para a economia e mercados brasileiros. Se tiver êxito – e o FED não estragar a festa – é muito provável que a melhora prossiga. Os cenários que se descortinam diante de Trump são menos preto-e-branco, já que a economia americana está fundamentalmente saudável. De fato, um cenário provável é que o governo Trump, paralisado por discórdia interna e minado por suspeitas, pouco consiga realizar ou aprovar no primeiro ano. Por outro lado, o potencial para decisões catastróficas de política externa (conflito armado com a China?) não é desprezível sob Trump. Decididamente, vivemos em tempos interessantes.
Desempenho fevereiro de 2017: Fundo Zarathustra
Nós, gestores do Fundo Giant Zarathustra, não temos a pretensão de antever o futuro. Como os filósofos da Antiguidade, nossa única certeza é a impossibilidade da certeza. Nossa gestão é fundamentalmente agnóstica sobre o futuro e isso nos ajuda a evitar a armadilha de visões dogmáticas que, não raro, se tornam presas de sua própria inflexibilidade. Mas, quaisquer que sejam as surpresas que nos reserve o futuro, nosso empenho é para que o os modelos do Fundo Giant Zarathustra consigam sempre se adaptar ao novo cenário e explorá-lo para gerar retorno positivo. Amém.
Em fevereiro a estratégia Giant Zarathustra gerou +5,21% de retorno, com destaque para os modelos de tendência de juros e câmbio, e modelos volatilidade.
Veja os dados consolidados do fundo
