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Carta aos cotistas (Fev/16)

1 de março de 2016·Mauro Shinzato
A história é pródiga em aventureiros, cheios de carisma, dotados de agudo instinto para seus próprios interesses, que perseguiram poder pessoal – passando por cima de parlamentos e constituições, distribuindo favores a lacaios e confundindo seus desejos com os da comunidade” (Umberto Eco)

A história é pródiga em aventureiros, cheios de carisma, dotados de agudo instinto para seus próprios interesses, que perseguiram poder pessoal – passando por cima de parlamentos e constituições, distribuindo favores a lacaios e confundindo seus desejos com os da comunidade” (Umberto Eco)

O refúgio representado pelo mês de fevereiro

No calendário nacional, o mês de fevereiro – em que caem as comemorações de Carnaval (geralmente), férias escolares e o recesso parlamentar – é um interlúdio nas agruras e vicissitudes que atormentam brasileiros durante restante do ano. Quaisquer que sejam as crises, tensões ou conflitos que turvem o horizonte do país, eles são temporariamente suprimidos com música, dança, excessos etílicos e carnais remanescentes de antigos festivais pagãos. Se em muitos países o Carnaval é um evento regional (Nova Orleans, Veneza) no Brasil é um fenômeno de massa que atravessa o território nacional e transcende sua origem religiosa. Por quatro dias o país abole hierarquias¹, inverte a ordem estabelecida e se refugia em fantasia lúdica. A capital Brasília se esvazia e a trégua política que se segue cria um hiato que contribui para o clima de suspensão da realidade…

A realidade de fevereiro de 2016

Lamentavelmente, a realidade não pode ser suspensa indefinidamente. A despeito dos melhores esforços de foliões e governo, ela teima em se impôr – não raro, de forma implacável. Fevereiro teve sua cota de indicadores econômicos ruins: inflação em alta (IPCA-15 1.42%, versus expectativa de 1.32%), desemprego ascendente (7.6% em janeiro) e atividade cadente (IBC-Br, estimativa do PIB feita pelo Banco Central, -4.1% em 2015) para citar alguns. Mas se a procissão macabra de indicadores já foi incorporada à rotina, o duplo rebaixamento da nota soberana pelas agências de crédito causou choque. Primeiro foi a S&P, que rebaixou a nota do país um degrau com perspectiva negativa. Dias depois a Moody’s, única das grandes agências que ainda mantinha o Brasil na categoria de investimento, juntou-se às demais removendo o cobiçado selo; de forma pouco usual, a agência baixou dois degraus de uma canetada, também com perspectiva negativa. A divulgação dos balanços do ano fiscal de 2015, que acontece em fevereiro, foi outra dura intromissão da realidade sobre a fantasia. As empresas foram fortemente afetadas pela crise econômica e, em geral, reportaram resultados muito ruins. Talvez emblemática tenha sido a Vale: espremida entre preços de minério em queda, baixas contábeis e forte aumento do endividamento (com a disparada dólar), reportou prejuízo de R$ 44 bilhões – o pior resultado de uma companhia aberta no Brasil em três décadas.

Ou tome-se as propostas do governo para lidar com a crise fiscal. O novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, anunciou plano de criar uma “banda” de 1% em torno da meta de superávit primário. Essa banda, argumentou o ministro, criaria flexiblidade para administrar flutuações na receita tributária. O anúncio foi recebido com perplexidade: um governo reincidente no estouro de metas, num momento de aguda crise fiscal, falando em flexibilizar meta? Seriously? “Haverá teto para o gasto público e a arrecadação será incrementada com receita da CPMF” emendou o ministro, oferecendo um agrado ao mercado financeiro. “A Previdência será reformada”, jurou. Mas depois de tantas promessas quebradas e metas descumpridas, é grande a descrença nesse governo. As declarações de Barbosa foram recebidas com reações que variaram entre morna indiferença e descarado ceticismo. É quase certo que a frustração de receitas inviabilize a meta de 0,5% de superávit primário em 2016 (a proposta da banda é uma admissão tácita disso). Além disso, Barbosa não parece imbuído de senso de urgência. Ao contrário do ex-ministro Joaquim Levy, que defendia um ajuste duro e imediato, Barbosa aposta em gradualismo visando resultados de “longo prazo” (quando estaremos, segundo Keynes, todos mortos). O elefante na sala é que a dívida cresce exponencialmente e, salvo medidas drásticas, passará de 80% do PIB até 2018. A intenção de reformar a Previdência, por sua vez, é bem vinda mas sua concretização esbarra na fragilidade da base de apoio do governo – a começar, na resistência do próprio partido do governo, visceralmente avesso a qualquer mudança nas regras de aposentadoria (o PT parece ter rompido em definitivo com o governo; a presidente foi conspícua pela ausência na recente festa de comemoração de 36 anos do partido).

Para completar o quadro desolador, foi preso um dos conselheiros e principal artífice das campanhas eleitorais da presidente, o marqueteiro João Santana. Santana foi acusado de receber pagamentos de empreiteiras envolvidas no escândalo do Petrolão. A prisão do marqueteiro é um golpe para o governo pois expõe a ligação entre recursos desviados da Petrobrás e o financiamento de campanha de Rousseff – ligação que pode determinar a cassação do mandato presidencial em ação que corre no TSE.

O início da reversão do quadro atual?

E no entanto… há sinais de que alguma chave virou no inconsciente coletivo do mercado. O sentimento fortemente negativo de alguns meses atrás dá sinais de fadiga e começa, senão a se reverter, ao menos se estabilizar (de fato, pesquisa recente do Datafolha mostra queda no pessimismo com a economia). Desde janeiro os modelos do fundo Zarathustra têm captado essa aparente mudança no zeitgeist e operado posições predominantemente “otimistas” (apostando em queda de juros e dólar, por exemplo). É bem verdade que, em fevereiro, houve melhora do humor externo com a recuperação do petróleo (Rússia e Arábia Saudita firmaram acordo para reduzir a produção), medidas de estímulo na China (redução de depósitos compulsórios) e que essa melhora beneficiou o Brasil por tabela. Mas surpreendeu a reação extremamente contida, comportada até, dos mercados diante dos dois rebaixamentos (na véspera do primeiro rebaixamento o dólar tinha fechado cotado a 3,99 e, no dia seguinte ao segundo, a 3,95). Mesmo considerada a melhora externa, parece haver certa complacência benigna com o Brasil. Uma explicação provável é o chamado “fluxo estrangeiro”, entrada de capitais que têm turbinado a conta de investimentos diretos. Deterioração econômica e incerteza política não obstantes, os altos retornos oferecidos no Brasil são tentadores quando a alternativa são juros nominais nulos ou negativos. O gestor Luis Stuhlberger, notoriamente pessimista com as perspectivas da economia brasileira, invoca exatamente essa hipótese:

“(…) os estrangeiros estão muito otimistas com Brasil. Para quem não mora aqui e só entra com dinheiro, três anos são apenas uma oportunidade de vender dólar a R$ 4 e fazer bons investimentos num país com muito potencial. (…) como você imaginaria a reação dos mercados com a saída de Levy, a perda do grau de investimento por duas agências e R$ 120 bilhões de déficit no ano passado? Ela está muito mais benigna do que de fato eu imaginaria. Minha visão é que o estrangeiro subestima nosso rombo fiscal estrutural e crescente, que o governo terá que socorrer Petrobrás, Caixa e os Estados, e a dificuldade de se implementar reformas. (…) caímos num buraco, logo vamos arrumar um jeito de sair dele. Mas provavelmente embaixo do buraco tem um alçapão. Essa é mais ou menos minha visão.” (Stuhlberger: no fundo do poço tem um alçapão, Valor Econômico, 15 fevereiro 16)

“(…) os estrangeiros estão muito otimistas com Brasil. Para quem não mora aqui e só entra com dinheiro, três anos são apenas uma oportunidade de vender dólar a R$ 4 e fazer bons investimentos num país com muito potencial. (…) como você imaginaria a reação dos mercados com a saída de Levy, a perda do grau de investimento por duas agências e R$ 120 bilhões de déficit no ano passado? Ela está muito mais benigna do que de fato eu imaginaria. Minha visão é que o estrangeiro subestima nosso rombo fiscal estrutural e crescente, que o governo terá que socorrer Petrobrás, Caixa e os Estados, e a dificuldade de se implementar reformas. (…) caímos num buraco, logo vamos arrumar um jeito de sair dele. Mas provavelmente embaixo do buraco tem um alçapão. Essa é mais ou menos minha visão.” (Stuhlberger: no fundo do poço tem um alçapão, Valor Econômico, 15 fevereiro 16)

A hipótese do fluxo estrangeiro é reforçada pelo fato de que muitas empresas, dentre as quais Petrobrás e Vale, estão vendendo ativos para levantar caixa – os compradores são, tipicamente, empresas estrangeiras. Uma segunda hipótese é que o mercado tenha farejado que, com a prisão do marqueteiro João Santana, o governo esteja nos seus estertores. Seja por impeachment, cassação ou renúncia, o governo cairá e será ainda em 2016. Nesse cenário, assumiria um governo de transição com melhores perspectivas de levar a cabo um projeto reformista ou, na pior hipótese, reverter o quadro de profundo desalento que se instalou no país, à semelhança do que aconteceu na Argentina com a eleição de Macri. Stuhlberger, como reproduzido acima, duvida desse cenário. Seja como for, é significativo que o mercado prefira a incerteza de um cenário de transição do que a certeza do status quo…

Desempenho fevereiro de 2016: Fundo Zarathustra

Em fevereiro o fundo Giant Zarathustra FIM rendeu 1,24% graças, sobretudo, aos resultados positivos dos modelos de tendências de juros, de reversão à média de ações e intradiário de dólar. Contribuíram negativamente no resultado o modelo de tendências de dólar e opções. Certamente, foi um mês em que se provou a vantagem de ter uma carteira diversificada com muitos modelos descorrelacionados entre si.

Veja os dados consolidados do fundo

¹Em sua obra clássica Carnavais, Malandros e Heróis  o antropólogo Roberto da Matta interpreta o carnaval como um ritual em que se dissolve a rígida hierarquia social da sociedade brasileira para se estabelecer o seu oposto: um domínio igualitário e impessoal. Deixa de valer o paradigmático “você sabe com quem está falando”, típico de sociedades mediadas por relações pessoais e autoritárias, para valer regime de igualdade perante regras impessoais. O autor nota que, em sociedades igualitárias (no sentido da impessoalidade das regras) como a americana, paradoxalmente o carnaval é altamente hierarquizado e pessoal.

Sobre o autor
Mauro Shinzato
Mauro Shinzato
CEO

+10 anos escalando negócios de tech e mercado financeiro. Responsável pela estratégia corporativa, representação institucional e novos negócios. Formado em Administração de Empresas na FGV

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